Eu por Eu mesmo

Divaga��es particulares sobre um quarto de s�culo

Nasci numa manhã de outubro de 76. Lembro de algumas hist�rias das quais fui protagonista na infância e adolescência, com ou sem brilho - n�o tenho licença para dar auto-opinião. Mas a minha inf�ncia d� um enredo que, se desnecess�rio para todos, particularmente enche meu curr�culo de alguns feitos e atitudes ora descabidas, ora necess�rias.

A come�ar pelo Pr�-escolar na Escola Estadual Desembargador Canedo, palco de uma ador�vel lembran�a de estudos e contatos com os primeiros amigos. E por falar em palco, ainda existe l�, intacto, aquele mesmo em que subi numa noite de quase-Natal para representar. Foi minha primeira e �nica atua��o como ator em pe�a teatral. No pres�pio vivo, ao lado do menino Jesus, de santa Maria e outros personagens ilustres, coube-me o papel da vaca, uma surpresa de minha m�e, que confeccionou a fantasia. N�o fiz mal, apesar da ironia de uma plat�ia euf�rica. Berrei no momento certo, com aqueles chifres enormes feitos de arame e pano, para nunca mais voltar �quilo. Fui aplaudido, e decidi, precocemente, que o teatro estaria longe de meus planos.

Foi na mesma escola que conheci muitas pessoas, que me dei por ser humano e consolidei amizades. Alguns anos depois do pr�, no prim�rio, estava no s�tio de um amigo para uma pelada quando veio a id�ia de uma pesca no a�ude. Vi algo brilhante, em convexo para fora d��gua e resolvi checar. Peguei uma pedra, atirei para o alto, desceu em par�bola, justamente em cima da carpa que viera � superf�cie. Em poucos segundos ela boiava. Pela frase que soltei, lembro bem, passei longe de um pescador: caramba, matei um peixe. N�o chega a tanto, mas de certa forma foi uma conquista, assim como a primeira vez que pedalei, sozinho, numa bicicleta cross rumo � escola.

Ro�as e fazendas, a�udes e estradas poeirentas circundaram meus caminhos infantis. Em meados de 80, depois de percorrer de carro uns quinze quil�metros de estrada de ch�o, fui dar em Cachoeira Alegre, um distrito rural, terra natal de minha m�e. Comemorava-se algum feito ou um feriado, bandeiras das cidades, do Estado e do Brasil compunham o cen�rio melanc�lico daquele lugar que s� tinha uma rua de casas pequenas, igreja e cemit�rio.

Nas corridas em busca de algo a fazer, cambaleei e no trope�o derrubei o mastro da bandeira de... Cachoeira Alegre, sustentado apenas por uma latinha cheia de areia. Uma pena, olhares tristes rondaram o local, na cerim�nia, em busca do culpado, todos queriam saber quem foi o respons�vel pelo n�o aparecimento da bandeira no momento ilustre � o mastro n�o se sustentara mais ap�s v�rias tentativas. No dia seguinte, minha m�e ouvia coment�rios no r�dio, uma crian�a n�o identificada derrubara o mastro, e ela maldizia o moleque que derrubara o orgulho de sua terra natal, a primeira bandeira confeccionada. Eu escutava, calado.

Mas n�o pude silenciar diante do estrondo causado pela traseira da Caravan do Silvinho na quina de uma parede. Trabalhava numa loja debaixo da casa onde morava, �s margens da BR-116. Foi no carro dele que conheci o acelerador, a embreagem e o freio. E, como n�o poderia ser pior para um iniciante, no mesmo ve�culo eu troquei as fun��es, e diante da ordem pisa! Pisa!, eu pisei, errado, e a traseira afundou na parede. Sa� correndo, gente passava para ver estragos, o Silvinho, quieto, assumiu a culpa, n�o tinha nada que botar um moleque no volante de seu carro, acho que pensava assim.

O jornalismo aflorou na juventude, quando conquistei as primeiras vit�rias ao fazer disserta��es seguidas para os amigos. No �ltimo ano no col�gio, decidi lan�ar um jornal pirata e ganhei a antipatia gratuita de professores e da dire��o. Tomei pau, como ovelha negra da turma. No fim do ano, fui um dos dois entre os 40 alunos a passar no vestibular de uma universidade p�blica. Seria economista, mas diante do boletim em vermelho, recusaram-me. Bem feito pro col�gio, n�o fizeram propaganda com meu nome. Sorte a minha em n�o lidar com n�meros num pa�s de crises.

A cada ano que completo olho meu passado com uma ponta de saudosismo diante desses entre outros epis�dios n�o t�o marcantes, mas em que fui protagonista, e isso basta. Cada um tem sua hist�ria, e no v�cio de escriba, decidi apresentar parte da minha, pouco de uma inf�ncia, muito de mim. Divaga��es particulares sobre um quarto de s�culo, como estas, necessariamente n�o trazem o consolo de reviver bons tempos ou reencontrar pessoas queridas, mas ressuscitam, de alguma forma, a crian�a, adolescente ou jovem que voc� foi e que ainda pode ser. Faz falta. � um exerc�cio de liberdade, da confec��o de uma vida.

 

 

 

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